EDLG maio 2016: Homenagem a Manuel Maria

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Quem somos os galegos – artigo de Juan Carlos Rocamonde

Publicamos o artigo do membro da EDLG do Conservatório, Juan Carlos Rocamonde, que se pode ler no tabuleiro da EDLG do centro. (texto em baixo da foto)

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Quem somos os galegos

A história dum povo soterrado

Quando os galegos pensamos na nossa língua, no galego, podem surgir diferentes opiniões. Alguns veem o galego como uma língua inútil, inservível, perdida, soterrada, inculta, alheia a eles. Não falam em galego. Consideram-no um desprestígio e unha vergonha falar em galego. Não se sentem galegos, ou sim, os galegos «cools» do século vinte e um (mirai, «eu falo gallego», mas não o falam, nem sequer o conhecem e, naturalmente, tampouco o sabem falar), que presumem dos seus papais ricos sem saber articular uma frase bem dita em galego.

Também achamos os que não falam um galego muito correto mas sim que sabem falar em galego. Empregam-no a diário, no seu entorno. Foram ensinados pelos seus pais, já que estes não conheciam o castelhano —mas lamentavelmente sim que se incrustou no galego—, e transmitiram a língua de boca a orelha, tremendamente castelhanizada, modificada, cada geração mais. Porém, sentem-se galegos e falam a língua com orgulho, mas não se preocupam em falá-la bem ou mal, e tampouco pelo seu passado histórico. São gente humilde, na maioria, e graças a eles ainda podemos dizer que falamos galego.

Em terceiro lugar, estão os que realmente mostram um grande amor pela língua, e se preocupam por ela. Por conservá-la. Por falá-la. Por expandi-la. Por refletir. Esta gente marcou a história de Galiza ao longo do tempo pela sua luta constante contra a repressão do povo galego, desde o século XVIII até hoje, alguns escrevendo em galego —como sabiam, com o alfabeto castelhano—, outros tratando de reintegrar insatisfatoriamente o galego no português, outros reivindicando diretamente a sua liberdade —feito que se remonta muito antes do século XVIII—, «et cetĕra».

Hoje em dia, esta gente sabe que o galego não deixa de ser um dialeto do português. Uma simples variante na fala do português. Como o pode ser o castelhano de Burgos, o de Jaén e o de Buenos Aires, ou o inglês de Londres, o de Washington e o de Melbourne. Não obstante, a filologia muitas vezes é manipulada por interesses políticos, e com o galego temos um caso bem claro, onde se tentou separar as falas galegas da língua comum para debilitá-la e impor melhor o castelhano na Galiza, na clássica estratégia do «divide y vencerás», estratégia que não só se utiliza em Galiza, pois também se pode observar com o «catalão e valenciano», o «sérvio e o croata», e noutros momentos com o «holandês e o flamenco».

Isto que digo do dialeto pode soar muito forte. Os galegos não gostamos de que se nos considere falantes dum dialeto —provavelmente deveriam dizer-no-lo muito mais a miúdo para realmente preocuparmo-nos pelo galego— mas as minhas palavras são verdadeiras. A fala e a escrita são duas atividades humanas muito diferentes, e esta última não é fiel reprodutora da fala, senão que é um código elaborado ao longo dos séculos que tem uma história, uma etimologia e as suas coerências e incoerências. As falas de uma mesma língua são múltiplas, diferentes e mesmo divergentes. Porém na cabeça de todos os falantes está a firme convicção e ideia de que falam a mesma língua e, sobretudo, de que a escrevem igual. Isto não ocorre com a maioria dos galegos, que consideram o galego uma língua claramente alheia e diferenciada do português. Isto, somado à ausência de falantes desse galego independente e isolado, demonstra que o critério da utilidade da língua é algo fundamental para qualquer língua do mundo. Se a língua não tem um número suficiente de utentes (falantes, poucos há, e escreventes, ainda menos), perde-se porque deixa de ser útil.

Isto ocorre com o galego. As pesquisas de uso do galego em Galiza são prova irrefutável. Quase a metade dos rapazes de cinco a catorze anos falam sempre em castelhano (e provavelmente não saibam falar em galego). Esta gente será a que lhe ensine o galego aos seus filhos. Quê digo ensinar! Não ensinarão nada! Porque nada de galego sabem falar. Olho ao dado:  só treze jovens de cada cem falam sempre em galego, enquanto os dados de maiores de sessenta e cinco anos, achamos que os datos estão invertidos! A metade deste setor social fala sempre em galego, e só um treze por cento fala sempre em castelhano. Por quê? A resposta é que cada vez o galego deixa de ver-se com uso, e reempraza-se pelo castelhano, que é mais moderno, culto e interessante que o «galego» isolado.

Posto que a escrita não reflete fielmente a fala, depois de termos perdido a tradição escrita, o inteligente pelos galegos deveria ser assumir a tradição escrita do Galego onde esta se conservou, em Portugal. Não se trata de falarmos diferente a como falamos, só de assumir que a escrita do galego-português deve estar unificada, como está a do castelhano-espanhol no mundo, feito que quase todos os nossos intelectuais e literatos dos séculos XIX e XX já disseram («O galego, ou é galego-português, ou é galego-castelhano», Ricardo Carvalho Calero).

Em certa maneira, o galego da RAG, o galego-castelhano, é filho da repressão, do maltrato, a subordinação e o imperialismo do castelhano; significa admitir que ainda que agora temos a oportunidade de rejeitar e passar página na história galega, que ainda que agora podemos falar livremente o nosso galego, o galego-português, não o fazemos, porque acordamos com a ditadura histórica que carregamos às nossas costas durante séculos. Obviamente não é esta a intenção, ou isso quero pensar, do feito de falar esse «galego». Nós não nos percebemos, porque temos este galego interiorizado, mais é assim. Não só por uma questão etimológica, mas também pela constante desvalorização da cultura galega. A perda do amor pela nossa terra de muitos, que trocam gaitas por telemóveis, festas por discotecas, livros por videojogos, conversas por mensagens… A pouca consideração da nossa própria gente e a velocidade deste século destroem-nos.

É função, portanto, de todos transmitir o amor pela cultura e língua galego-portuguesa, o amor por um povo unido, o amor por um galego activo, empregado e falado pela maioria da povoação, o amor por um galego generalizado e normalizado, incluído na sociedade, e o amor por um galego amado e respeitado.

 

Juan Carlos Rocamonde Quintela (maio 2015)

Membro da EDLG do Conservatório

 

Tabuleiro EDLG fevereiro 2016

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Tabuleiro EDLG janeiro 2016

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Tabuleiro EDLG dezembro 2015

Este foi o trabalho realizado no passado mês de dezembro de 2015: Celebramos o centenário das Irmandades da Fala (1916-2016), publicamos os textos e as notícias elaboradas pelo nosso alunado:

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FELIZ 2016!